Jack Qualquer Coisa

Thursday, April 13, 2006

04 (por Michel Gonçalves)

"CAPACETES DE ALUMÍNIO, CÃES DO INFERNO E UMA REVELAÇÃO"

Jack (não pessoal, não é o estripador) logo percebeu uma estranha silhueta se esgueirando pelos cantos imundos da casa decadente que ostentava alvas grades brancas de cores esbranquiçadas. Como estava intrigado, chateado, machucado (devido à colisão com a velhinha... que o demo a tenha), fétido (quem mandou brincar com os rejeitos intestinais do próximo?) e sem nada realmente útil para fazer, nosso intrépido herói (que nessa altura ainda não fez porra nenhuma e talvez nunca o fará para receber tal título), se aventurou em contemplar mais de perto a estranha figura que naquele instante também notara a sua insignificante presença.

Correndo apressado de forma vagarosa, Jack Adora Meter os Bedelhos Onde Não É Chamado, finalmente se aproximou das grades e o vulto começou a se revelar, caminhando lentamente em sua direção.

Da escuridão do canto mais encardido da casa, foi-se revelando a estranha criatura, gradualmente seus traços diabólicos apareciam e o ruído de seus passos se conseguiam ser mais infernais e impiedosos do que o som das marteladas dos malditos pedreiros que tanto incomodaram Jeque naquela fatídica manhã, os olhos cor de topázio-azulado com bonina o fitavam de uma forma furiosamente calma, enquanto parte de seus ameaçadores dentes podres iam se expondo. Ao se mostrar por inteiro, o ser se revelou um cachorro, que provavelmente não escutou a sua mãe, abriu a janela depois do banho quente e ficou de boca torta.

Kcaj (lê-se ao contrário), sentiu um misto de medo, pavor, pânico, pena, alegria, felicidade, dor de barriga, calafrios, calaquentes, calamornos, cala*temperatura oscilante*, dor, sofrimento, miséria, loucura, insensatez, fome e vontade de vomitar ao ver o canino do mal em sua forma plena, este, porém, apenas o observava com uma orelha em pé e outra deitada (geralmente os cães fazem isso quando estão curiosos, mas no caso desse aí, é defeito irreversível mesmo).

O que parecia uma banal cena de uma troca de olhares entre um homem sujo de merda e um resto de cachorro aos olhos de qualquer reles transeunte que naquele momento poderia ter passado por ali, era na verdade apenas uma banal cena de uma troca de olhares entre um homem sujo de merda e um resto de cachorro. Mas enquanto Jack olhava fixamente para os olhos do pseudo-cão, sua boca começou a secar, seus olhos (ainda sujos de remelas) lacrimejavam incessantemente e uma série de carinhas felizes, redondas e rosadas, misteriosamente apareceram e começaram a gritar insistentemente:

-Fracasso! Tu não passa de um monte de lixo! Decadente! Pobre! Ridículo! Limitado! Trouxa! Mala! Lançador de bosta, no sentido literal da coisa! Tu não vale nem mesmo o chão que teu pai outrora pisara! Hahahahahahahhahaha!!!!!!!!

Junto com os carinhosos adjetivos proferidos pelas carinhas felizes, redondas e rosadas, uma série de imagens pairavam na cabeça de Jack Ass Sujo, entre elas, a velhinha maldita que mesmo depois de morta continua sendo infinitamente citada neste conto, Ronaldo Me Gustan Las Palomitas Morales o xingando com um pedaço de cocô na mão como se fosse uma barra de chocolate recém retirada de um papel de baixa qualidade, e sua querida mãezinha com um pedaço de jornal na mão falando “Vou limpá-lo filhinho!”.

O cão diabólico, maligno, satânico, infernal, nefasto e horripilante então resolve nocautear de vez, nosso amigo em transe. Sua boca torta foi lentamente se abrindo e após juntar todo o ar que o seu pulmão inexistente podia suportar, ele liberou com todas as sua forças um ruído:



- Ahhhhhh!

Jack Whatever, subitamente acorda de seu transe em tempo suficiente para ouvir a patética manifestação sonora do tão adorado cãozinho. Achou aquilo tudo muito engraçado e começou a debochar:

- Hahahaha! Um bicho tão feio como você com um latido desse?! Pela a sua aparência e falta de membros, julguei que você era um cachorro proveniente do inferno, mas no fim, não passa de um pobre coitado!

Extremamente ofendido com a zombaria daquele homem cruel, o cãozinho começou a emitir uma série de seus latidos lamentáveis, fazendo Jack O Zombador De Cães Malignos Mas Ainda Sim Indefesos, risse mais e mais.

Depois de um bom tempo desgraçando a desgraça de vida do cachorro desgraçado, descontando todos os seus problemas e fracassos no pobre animal, Jack fora surpreendido por um forte impacto em sua nuca, e desmaiou.

***

Com dores múltiplas no corpo, Jack Não Sei O Que Houve, percebe que está em um deserto de clima desértico, totalmente nu, exceto a um capacete de alumínio que misteriosamente aparecera em sua cabeça.

Continua...

Thursday, March 30, 2006

03 (por Lucas Paio)

(Continuação do capítulo "Merdas Acontecem")

- Mas então... qual foi o problema? A batida do trenzinho da alegria?
- Também não! Isso foi até bom! Aquela cambada de bichinhos cantantes!
- Entao... foi o posto de gasolina?
- Não! Você é burro, homem?


- Talvez até seja, Morales... – responde Jack Qualquer Coisa, ainda chorando. Aquele trenzinho da alegria lhe trazia ótimas recordações da infância feliz e repleta de brinquedos que tivera... infância esta que tentara, há alguns poucos momentos, reviver brincando de comandos em ação, porém com o material errado – Você pode me despedir, se quiser... eu não mereço mais trabalhar aqui, depois disso tudo...

- Não merece mesmo! – concordou Vasquez (...) Morales.
- Eu sei... quer que eu beije seus pés? – sugeriu Jack sem Ass (no sobrenome, não no corpo).
- Beijar meus pés? Não, homem! Eu quero que você saia daqui agora!
- Sair? Eu vou ser despedido? Não, Morales... eu não posso ficar sem emprego... mesmo que seja um emprego de merda desses, literalmente. Por favor, pensa mais nessa decisão...

O olhar piedoso de Jack confrontou-se com o ameaçador olho direito e o intrigante olho esquerdo de Sancho Pança Morales. Jack estava ajoelhado, com as mãos grudadas uma na outra como se brincasse de passar anel, de seus olhos saíam tristes e salgadas lágrimas, e todos ao redor se compadeciam com a tristeza do garoto (garoto vírgula, Jack já era quase um vovô! Tá bom, vovô também não, talvez um homem maduro que já saiu da adolescência a long, long time ago). O ameaçador e o intrigante olharam nos olhos de Jack, ajoelhado aos pés de seus donos, uma dúvida no ar, será que Jack será despedido, não será despedido...? A dúvida finalmente desaparece como uma tampa de caneta bic quando cai no chão assim que Morales Precedido de Infinitos Sobrenomes pronuncia sua frase:

- Olha, eu não devia fazer isso. Mas você fica. Vou até dar uma promoção a você: a partir de agora, você é o novo vice-presidente da lanchonete.

Nosso amigo Djek, ao ouvir isso, levantou-se num pulo digno de uma pulga gigante e gritou, hiper-entusiasmado:

- SÉRIO??!

- Claro que não! Nem presidente a gente tem aqui, quanto mais vice-presidente! Tchau! Rua! Fora! Sai daqui! Adiós! – disse o cruel manda-chuva e Todo Poderoso chefão da lanchonete, Ronaldo Alonso Vigil Motta Sanchez Sifuentes Villa (...) Vasquez (coloque aqui seu sobrenome latino favorito) Morales.

E assim, em meio a aplausos (a Morales, não a Jack), vaias (essas sim para nosso infeliz amigo que vive com as baratas), batatas fritas (em cima de uma mesa), gritos (de um menininho que não queria comer), roncos (do estômago de alguns), mesas (espalhadas pela lanchonete), choros (do próprio Jack), portas (anunciando a saída), janelas (uma observação que nos leva a perguntar: Quantas janelas existem no mundo?), vidros (dos óculos de um gordinho na mesa 7), palhaços (todos, segundo a opinião de Jack), fogaréu (da explosão do posto de gasolina), fantasmas (um só, o da velhinha highlander, que ainda não sabia que tinha morrido), tiros (de revólver? de canhão? de espingarda de chumbinho? de meta? Ninguém nunca soube), acordes (da “Balada Sangrenta da Morte Morrida”, ou o que for) e mais uma pá de coisas, que Jack Qualquer Coisa, Sobrenome Espaço Em Branco, sem bigode, saiu da lanchonete onde trabalhara por anos a fio, triste, deprimido, chateado, totalmente deprê. Lá fora, os bombeiros já chegavam, trazidos por um telefonema de alguém cujo nome não tem a menor importância.

Sem vontade de ir pra casa, Jack começou a vagar sem destino, e vagou, vagou, vagou por mais de cinco minutos até alguma coisa chamar sua atenção numa rua deserta: atrás de uma grade branca, na garagem de uma casa onde morava alguém com muito mau gosto, estava um animalzinho que traria na mente do nosso herói fracassado os piores pesadelos de sua vida.

Continua...

Sunday, March 26, 2006

02 (por Michel Gonçalves)

(Continuação do capítulo "Merdas Acontecem")

Ronaldo Alonso Vigil Motta Sanchez (...) Villa (...) Vasquez (mais uma porrada de sobrenomes latinos) Morales, dono da lanchonete, demitiu Jack Foda-se o resto, não por causa da insistência do mesmo em violar a merda alheia e fingir que os pobres excrementos humanos eram bonequinhos estilo comandos em ação, mas por se empolgar tanto com a brincadeira a ponto de arremessar pequenas merdas em direções randômicas para dar um clima de guerra com armas químicas.

O problema não foi o lançamento das bombinhas fétidas, e sim o fato de uma delas ter acertado o prato de uma senhora de idade extremamente avançada, tão avançada que ninguém sabe ao certo como a maldita ainda conseguia se locomover sem as pernas, os braços , os cabelos, os dentes e os olhos. A velhinha aparentemente imortal estaria entre nós até hoje se aquele “míssil” mal-cheiroso não tivesse tomado o lugar do kibe, que naquele momento fatídico localizava-se em seu prato.

Não seria preciso entrar em detalhes sobre a tragédia para a compreensão dos leitores, porém, o relato completo é necessário por motivos que não concernem a vocês, então leiam e não reclamem.

Como muitos obviamente pensaram, a velha não tão imortal assim mastigou o recadinho de Jack e percebendo na hora o mal-cheiro/gosto, cuspiu toda aquela porcaria para o mais longe possível. A sua carência de dentes proporcionou uma velocidade extra no cuspe que a partir daquele dia, ficou conhecido como a super fuafa oral devido a sua assustadora velocidade e o seu cheiro infernal.

A miscelânea nojenta percorreu grande parte da lanchonete, até atingir o olho esquerdo de um outro freguês que por razões desconhecidas, praticava malabarismo com diversas esferas de papel incandescentes e ao receber o inesperado golpe, se assustou, gritou e jogou uma de suas bolinhas flamejantes na pobre velhinha que entrou imediatamente em combustão. No meio do desespero, Jack pegou o primeiro frasco que viu pela frente e despejou na anciã. O resultado não poderia ter sido outro, o fogo se extinguiu, a velha sobreviveu.

Antes que Jack pudesse esboçar qualquer reação, ela pôs-se a caminhar em direção à porta do o recinto praguejando, retirando o excesso de pele morta de seu corpo, sem perceber a presença de uma casca de banana estrategicamente posicionada ao lado de uma quina de mesa, perfeita para descuidados baterem a cabeça e morrer uma morte dolorosa e dramática.
A sorte da idosa milenar foi que sua ausência de pernas impossibilitou-a de pisar na casca, passando ilesa sobre o obstáculo. O azar da mesma, no entanto foi Jack sem Ass no sobrenome, que em uma vã tentativa de se desculpar, pisou nos restos da fruta e foi deslizando até acertar o pé em sua região pancreática, acarretando um grande deslocamento de seu resto de corpo que acabou sendo esmagado pelas rodas coloridas de um trenzinho da alegria que passava naquela hora. Tal fato acarretou na morte instantânea da velha que demorou 7 horas para perceber que havia morrido.


Aqueles que assistiram o sangrento episódio choraram compulsivamente, não pela a morte da criatura desmembrada, mas pela destruição do bondinho que após passar por cima da carcaça da velha considerada indestrutível, bateu em um posto de gasolina e explodiu. As chamas cobriram a vizinhança, enquanto os destroços do bondinho emitiam os últimos acordes da uma musiquinha infantil, mas que naquele dia, fora considerada por todos como a “Balada mortífera da morte sangrenta.”

Não demorou muito para que Ronaldo (aquele monte de sobrenome) Morales, chamasse Jack para uma séria conversa:

- Viu que diabos você fez, homem? Tá vendo o que acontece quando você brinca com a merda dos outros?!

Jack, com os olhos cheios de lágrimas e remelas, responde:

- Sinto muito pela a velha, Morales! Mas ela que foi burra por querer entrar na brincadeira!

Furioso, o chefe grita:

- Foda-se para aquela velha! Que os restos dela apodreçam nos quintos, sextos e sétimos do inferno!


Continua...

Saturday, March 25, 2006

01 (por Lucas Paio)

"ZZZZZZZZZZZZZZZ"

Jack Qualquer Coisa (nessas histórias sempre tem que ter um Jack), vulgo Sobrenome Irrelevante, acordou em seu apartamento onde vivia sozinho com dezenas de baratas precisamente às tantas horas da manhã de um dia qualquer, num ano qualquer, sonhando com qualquer coisa. Seu apartamento também ficava num local não importante, naquela cidade mesmo, no país tal.

Jack virou-se para o lado, ajeitando-se no travesseiro para olhar as horas no despertador barulhento que repousava no criado-mudo. Sete e um. Deu um tapa violento no pobre relógio, mandando engrenagens para todos os lados mas, enfim, acabando com o barulho insistente.

Sete e três. Dois minutos na cama, meditando se valia ou não a pena levantar-se, tomar café, trabalhar, voltar e dormir. Um ciclo sem fim, sem fim, sem fim, sem. Sete e seis e o levantamento de corpo foi realizado por Jack, o cobertor caindo no chão e ali ficando. Chinelos calçados e Jack foi em direção ao banheiro.

(No caminho passou uma barata, provavelmente recém-acordada também)

Ao olhar no espelho, seus olhos olharam os de seu reflexo, que voltaram a olhar os seus, que olharam os do reflexo e continuaram assim, infinitamente, por uns dois minutos de depressão. A barba ficou por fazer, os dentes sem serem escovados e as remelas enfeitando os olhos. Jack nem sequer abriu a torneira da pia, não tinha força, não tinha vontade, coragem, motivação, dinheiro, dinheiro? Decidiu-se por fim voltar a dormir.

Acordou novamente, possivelmente quatro, provavelmente três minutos depois. Alguém batendo violentamente na porta.

- Já vai! – gritou Jack, levantando-se da cama quente pela segunda vez em menos de dez minutos.

As batidas pareciam murros.

- Já vai, porra! – berrou. O berro fez com que os murros cessassem subitamente.
Depois de uma longa busca breve pela chave, destrancou a porta e abriu.

Ninguém.

Olhou de novo, no corredor do prédio, xingou uns palavrões e voltou a deitar-se, depois de trancar a porta, obviamente.

Antes de fechar os olhos, mais batidas. Jack acordou de vez e mandou o cobertor às favas. Abriu a porta quase espumando de raiva e constatou que, ou não tinha mesmo ninguém, ou o Gasparzinho estava fazendo hora com sua cara. Atravessou a tênue linha que separava seu apartamento do corredor do prédio, em busca do visitante desconhecido. Desconhecido e desaparecido, o que fez com que Jack voltasse e, frações de décimos de segundo antes de trancar a porta de madeira, o barulho novamente invadisse seus tímpanos. Batidas. Batidas. Batidas. Mas não na porta.

Olhou pela janela, guiado por instintos auditivos, e viu pedreiros trabalhando no prédio em construção do lado. Marteladas. Batidas. Burrice crônica ou loucura chegando por aí, pensa Jack Qualquer Coisa. Que se dane. Vamos ao trabalho.


"MERDAS ACONTECEM"

Jack Sobrenome Irrelevante, idade idem, cor do cabelo ibidem, trabalhava numa lanchonete. Uma lanchonete popular, vendia pasteizinhos, sanduíches, coxinhas. A lanchonete, não ele. Ele só lavava os banheiros. E não o fez por muito tempo.

Continua...