Jack Qualquer Coisa

Saturday, March 25, 2006

01 (por Lucas Paio)

"ZZZZZZZZZZZZZZZ"

Jack Qualquer Coisa (nessas histórias sempre tem que ter um Jack), vulgo Sobrenome Irrelevante, acordou em seu apartamento onde vivia sozinho com dezenas de baratas precisamente às tantas horas da manhã de um dia qualquer, num ano qualquer, sonhando com qualquer coisa. Seu apartamento também ficava num local não importante, naquela cidade mesmo, no país tal.

Jack virou-se para o lado, ajeitando-se no travesseiro para olhar as horas no despertador barulhento que repousava no criado-mudo. Sete e um. Deu um tapa violento no pobre relógio, mandando engrenagens para todos os lados mas, enfim, acabando com o barulho insistente.

Sete e três. Dois minutos na cama, meditando se valia ou não a pena levantar-se, tomar café, trabalhar, voltar e dormir. Um ciclo sem fim, sem fim, sem fim, sem. Sete e seis e o levantamento de corpo foi realizado por Jack, o cobertor caindo no chão e ali ficando. Chinelos calçados e Jack foi em direção ao banheiro.

(No caminho passou uma barata, provavelmente recém-acordada também)

Ao olhar no espelho, seus olhos olharam os de seu reflexo, que voltaram a olhar os seus, que olharam os do reflexo e continuaram assim, infinitamente, por uns dois minutos de depressão. A barba ficou por fazer, os dentes sem serem escovados e as remelas enfeitando os olhos. Jack nem sequer abriu a torneira da pia, não tinha força, não tinha vontade, coragem, motivação, dinheiro, dinheiro? Decidiu-se por fim voltar a dormir.

Acordou novamente, possivelmente quatro, provavelmente três minutos depois. Alguém batendo violentamente na porta.

- Já vai! – gritou Jack, levantando-se da cama quente pela segunda vez em menos de dez minutos.

As batidas pareciam murros.

- Já vai, porra! – berrou. O berro fez com que os murros cessassem subitamente.
Depois de uma longa busca breve pela chave, destrancou a porta e abriu.

Ninguém.

Olhou de novo, no corredor do prédio, xingou uns palavrões e voltou a deitar-se, depois de trancar a porta, obviamente.

Antes de fechar os olhos, mais batidas. Jack acordou de vez e mandou o cobertor às favas. Abriu a porta quase espumando de raiva e constatou que, ou não tinha mesmo ninguém, ou o Gasparzinho estava fazendo hora com sua cara. Atravessou a tênue linha que separava seu apartamento do corredor do prédio, em busca do visitante desconhecido. Desconhecido e desaparecido, o que fez com que Jack voltasse e, frações de décimos de segundo antes de trancar a porta de madeira, o barulho novamente invadisse seus tímpanos. Batidas. Batidas. Batidas. Mas não na porta.

Olhou pela janela, guiado por instintos auditivos, e viu pedreiros trabalhando no prédio em construção do lado. Marteladas. Batidas. Burrice crônica ou loucura chegando por aí, pensa Jack Qualquer Coisa. Que se dane. Vamos ao trabalho.


"MERDAS ACONTECEM"

Jack Sobrenome Irrelevante, idade idem, cor do cabelo ibidem, trabalhava numa lanchonete. Uma lanchonete popular, vendia pasteizinhos, sanduíches, coxinhas. A lanchonete, não ele. Ele só lavava os banheiros. E não o fez por muito tempo.

Continua...

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