04 (por Michel Gonçalves)
Jack (não pessoal, não é o estripador) logo percebeu uma estranha silhueta se esgueirando pelos cantos imundos da casa decadente que ostentava alvas grades brancas de cores esbranquiçadas. Como estava intrigado, chateado, machucado (devido à colisão com a velhinha... que o demo a tenha), fétido (quem mandou brincar com os rejeitos intestinais do próximo?) e sem nada realmente útil para fazer, nosso intrépido herói (que nessa altura ainda não fez porra nenhuma e talvez nunca o fará para receber tal título), se aventurou em contemplar mais de perto a estranha figura que naquele instante também notara a sua insignificante presença.
Correndo apressado de forma vagarosa, Jack Adora Meter os Bedelhos Onde Não É Chamado, finalmente se aproximou das grades e o vulto começou a se revelar, caminhando lentamente em sua direção.
Da escuridão do canto mais encardido da casa, foi-se revelando a estranha criatura, gradualmente seus traços diabólicos apareciam e o ruído de seus passos se conseguiam ser mais infernais e impiedosos do que o som das marteladas dos malditos pedreiros que tanto incomodaram Jeque naquela fatídica manhã, os olhos cor de topázio-azulado com bonina o fitavam de uma forma furiosamente calma, enquanto parte de seus ameaçadores dentes podres iam se expondo. Ao se mostrar por inteiro, o ser se revelou um cachorro, que provavelmente não escutou a sua mãe, abriu a janela depois do banho quente e ficou de boca torta.
Kcaj (lê-se ao contrário), sentiu um misto de medo, pavor, pânico, pena, alegria, felicidade, dor de barriga, calafrios, calaquentes, calamornos, cala*temperatura oscilante*, dor, sofrimento, miséria, loucura, insensatez, fome e vontade de vomitar ao ver o canino do mal em sua forma plena, este, porém, apenas o observava com uma orelha em pé e outra deitada (geralmente os cães fazem isso quando estão curiosos, mas no caso desse aí, é defeito irreversível mesmo).
O que parecia uma banal cena de uma troca de olhares entre um homem sujo de merda e um resto de cachorro aos olhos de qualquer reles transeunte que naquele momento poderia ter passado por ali, era na verdade apenas uma banal cena de uma troca de olhares entre um homem sujo de merda e um resto de cachorro. Mas enquanto Jack olhava fixamente para os olhos do pseudo-cão, sua boca começou a secar, seus olhos (ainda sujos de remelas) lacrimejavam incessantemente e uma série de carinhas felizes, redondas e rosadas, misteriosamente apareceram e começaram a gritar insistentemente:
-Fracasso! Tu não passa de um monte de lixo! Decadente! Pobre! Ridículo! Limitado! Trouxa! Mala! Lançador de bosta, no sentido literal da coisa! Tu não vale nem mesmo o chão que teu pai outrora pisara! Hahahahahahahhahaha!!!!!!!!
Junto com os carinhosos adjetivos proferidos pelas carinhas felizes, redondas e rosadas, uma série de imagens pairavam na cabeça de Jack Ass Sujo, entre elas, a velhinha maldita que mesmo depois de morta continua sendo infinitamente citada neste conto, Ronaldo Me Gustan Las Palomitas Morales o xingando com um pedaço de cocô na mão como se fosse uma barra de chocolate recém retirada de um papel de baixa qualidade, e sua querida mãezinha com um pedaço de jornal na mão falando “Vou limpá-lo filhinho!”.
O cão diabólico, maligno, satânico, infernal, nefasto e horripilante então resolve nocautear de vez, nosso amigo em transe. Sua boca torta foi lentamente se abrindo e após juntar todo o ar que o seu pulmão inexistente podia suportar, ele liberou com todas as sua forças um ruído:

- Ahhhhhh!
Jack Whatever, subitamente acorda de seu transe em tempo suficiente para ouvir a patética manifestação sonora do tão adorado cãozinho. Achou aquilo tudo muito engraçado e começou a debochar:
- Hahahaha! Um bicho tão feio como você com um latido desse?! Pela a sua aparência e falta de membros, julguei que você era um cachorro proveniente do inferno, mas no fim, não passa de um pobre coitado!
Extremamente ofendido com a zombaria daquele homem cruel, o cãozinho começou a emitir uma série de seus latidos lamentáveis, fazendo Jack O Zombador De Cães Malignos Mas Ainda Sim Indefesos, risse mais e mais.
Depois de um bom tempo desgraçando a desgraça de vida do cachorro desgraçado, descontando todos os seus problemas e fracassos no pobre animal, Jack fora surpreendido por um forte impacto em sua nuca, e desmaiou.
Com dores múltiplas no corpo, Jack Não Sei O Que Houve, percebe que está em um deserto de clima desértico, totalmente nu, exceto a um capacete de alumínio que misteriosamente aparecera em sua cabeça.
Continua...

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